Democracia, Trabalho e Relações de Gênero em Cooperativas e Associações
França e Amazônia Brasileira
Este projeto internacional de pesquisa investiga como relações de gênero, democracia no trabalho e estruturas organizacionais moldam a participação das mulheres, sua capacidade de expressão e seu poder de decisão em cooperativas e associações produtivas.
Desenvolvido por meio de cooperação científica entre a Universidade Federal do Pará (UFPA) e a Université de Strasbourg, o projeto conecta pesquisas realizadas na Amazônia brasileira ao projeto europeu WE-COOP — Shifting Perspectives: Visibility and Voice of Women in Worker Cooperatives.
Período: 2026–2027
Instituições: Universidade Federal do Pará · Université de Strasbourg
Coordenação brasileira: Cilene Sebastiana da Conceição Braga
Pesquisadora principal do WE-COOP: Ada Reichhart
Minha função: Pesquisador da equipe brasileira
Foco da Pesquisa
Cooperativas são frequentemente associadas à governança democrática, participação coletiva e maior autonomia no trabalho. Entretanto, compromissos formais com a igualdade não eliminam necessariamente desigualdades no interior das organizações.
O projeto examina essa tensão perguntando como práticas organizacionais e arranjos institucionais influenciam a participação das mulheres, sua liderança e seu poder de decisão. Atenção especial é dada às relações entre trabalho produtivo e reprodutivo, divisão sexual do trabalho, governança organizacional e acesso desigual à voz e à autoridade.
O desenho comparativo reúne dois contextos organizacionais e territoriais distintos: cooperativas de trabalhadores na França e cooperativas e associações produtivas na Amazônia brasileira.
Em vez de pressupor que a organização cooperativa produza automaticamente resultados democráticos ou emancipatórios, a pesquisa investiga as condições sob as quais organizações coletivas podem reduzir ou reproduzir desigualdades existentes.
Cooperação de Pesquisa França–Brasil
O projeto está conectado ao WE-COOP — Shifting Perspectives: Visibility and Voice of Women in Worker Cooperatives, projeto de pesquisa financiado pelo ERC e sediado na Université de Strasbourg.
O WE-COOP investiga as experiências de mulheres em cooperativas de trabalhadores e questiona perspectivas predominantemente androcêntricas nos estudos sobre democracia no trabalho. A pesquisa brasileira amplia essa perspectiva comparativa para formas amazônicas de cooperativismo e associativismo inseridas em condições socioeconômicas, institucionais e territoriais bastante distintas.
A cooperação combina intercâmbio metodológico, análise comparativa, publicações científicas conjuntas e missões de pesquisa entre Brasil e França.
Eixo de Pesquisa na Amazônia
Mulheres, Cooperativas e Extrativismo na Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu
Um dos principais eixos da pesquisa brasileira concentra-se na Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu (RESEX), em Bragança, Pará.
O estudo examina como relações de gênero estruturam a participação das mulheres em associações, cooperativas e cadeias de valor vinculadas a atividades extrativistas e pergunta se essas organizações ampliam a autonomia das mulheres ou reproduzem formas econômicas, políticas e territoriais de subordinação.
A pesquisa examina atualmente três contextos organizacionais:
ASSUREMACATA — Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu
A associação participa da governança da reserva extrativista e constitui um contexto importante para estudar a relação entre elevados níveis de participação feminina e sua efetiva representação e autoridade nos processos de decisão.
COOMAC — Cooperativa Mista dos Agricultores Familiares e Extrativistas dos Caetés
A cooperativa conecta agricultura familiar e extrativismo florestal ao processamento e à comercialização de produtos como óleos vegetais. Constitui um caso particularmente relevante para examinar como o trabalho extrativista das mulheres se conecta a mercados formalizados mesmo quando as próprias produtoras não são necessariamente associadas à cooperativa.
COOCABEPE — Cooperativa dos Catadores, Beneficiadores, Pescadores de Crustáceos da Vila do Treme
A organização oferece um caso para investigar a relação entre o trabalho das mulheres no beneficiamento de caranguejo, a participação na cooperativa e o controle sobre comercialização e tomada de decisão organizacional.
Questões de Pesquisa
A pesquisa amazônica investiga uma questão mais ampla:
Como as relações de gênero influenciam as formas pelas quais territórios são constituídos, governados e integrados aos mercados?
Essa questão conecta relações de trabalho no interior das organizações a processos mais amplos de governança territorial e integração aos mercados.
Três hipóteses de trabalho orientam a pesquisa empírica.
Trabalho de cuidado e criação de valor.
A pesquisa examina como o trabalho de cuidado e a reprodução social sustentam atividades produtivas, embora frequentemente permaneçam insuficientemente reconhecidos nos sistemas formais de valoração econômica.
Cooperativas como interfaces organizacionais.
Cooperativas podem traduzir práticas produtivas localmente enraizadas e parcialmente informais em formas padronizadas compatíveis com mercados. Essa tradução é seletiva: determinados produtos, atividades e atores tornam-se visíveis e compatíveis com os mercados, enquanto outros permanecem fora dos sistemas formais de reconhecimento.
Controle de gênero sobre interfaces de mercado.
As mulheres podem participar intensamente da produção e do processamento, mas possuir menor controle sobre interfaces estratégicas que conectam produção, transformação, padronização, comercialização e tomada de decisão organizacional.
Em conjunto, esses mecanismos permitem examinar possíveis assimetrias entre criação de valor e autoridade institucional.
Relação com Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial
O projeto não foi concebido como uma aplicação de Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial (RWS). Os dois marcos devem, portanto, permanecer analiticamente distintos.
A pesquisa desenvolvida na Amazônia oferece, entretanto, um campo empírico particularmente relevante para meu trabalho teórico sobre desenvolvimento regional na sociedade mundial.
O caso Caeté-Taperaçu permite investigar como processos econômicos, políticos e ambientais de alcance global tornam-se seletivamente territorializados por meio de organizações.
Nessa perspectiva, uma região não é tratada simplesmente como um recipiente geográfico. A pesquisa examina como processos societais heterogêneos se conectam seletivamente e adquirem consequências em configurações regionais historicamente constituídas.
O projeto explora, assim, uma questão teórica particularmente importante:
Como organizações mediam entre práticas localmente enraizadas e as estruturas diferenciadas da sociedade mundial?
Cooperativas e associações podem ser investigadas como interfaces organizacionais que conectam produção extrativista, governança ambiental, mercados, instituições públicas e comunidades locais.
O gênero acrescenta outra dimensão a esse problema. A integração territorial e mercantil pode ser altamente seletiva: participação na produção não implica necessariamente acesso equivalente à autoridade organizacional, à definição de padrões, à comercialização ou à apropriação de valor.
A pesquisa na RESEX fornece, portanto, uma base empírica para examinar formas de territorialização seletiva marcadas por relações de gênero.
Métodos
O projeto combina métodos quantitativos, qualitativos, comparativos e participativos.
O desenho da pesquisa brasileira articula mapeamento institucional e organizacional, coleta de dados socioeconômicos, entrevistas narrativas, observação participante, análise de assembleias e processos decisórios, análise documental, oficinas participativas e cartografia participativa.
A pesquisa de campo procura relacionar experiências individuais a estruturas organizacionais e processos territoriais. Entrevistas e observações examinam trabalho cotidiano e tomada de decisão, enquanto o mapeamento participativo pode revelar dimensões espaciais como mobilidade, múltiplas rotinas de trabalho e redes de apoio.
A análise comparativa com a pesquisa francesa oferece meios para identificar tanto mecanismos comuns quanto configurações específicas de democracia no trabalho, desigualdade de gênero e organização coletiva.
Resultados Esperados
O projeto prevê publicações científicas comparativas, um relatório de pesquisa bilíngue, atividades participativas de pesquisa, intercâmbios internacionais e formas acessíveis de comunicação científica.
Outro objetivo é construir conhecimento empírico sistemático sobre cooperativas e associações produtivas no Pará e sobre as condições organizacionais que afetam a participação das mulheres nessas organizações.
Para além dos estudos de caso individuais, o projeto contribui para uma agenda mais ampla de pesquisa sobre as relações entre gênero, organizações, territorialização, cadeias de valor e desenvolvimento regional na sociedade mundial.
Áreas de pesquisa: Gênero · Trabalho · Cooperativas · Democracia no Trabalho · Reprodução Social · Extrativismo · Amazônia · Desenvolvimento Regional · Sociedade Mundial
Pesquisas relacionadas
Comunidades Extrativistas e Relações Territoriais →
Amazônia como campo de observação →