Estratégias de Sustentabilidade — Mineração e Desenvolvimento Regional

Programa Integrado de Pesquisa — Subprojeto 2: Extração Mineral e Desenvolvimento Sustentável

1996–1998 · CNPq · NAEA/UFPA · Mineração · Desenvolvimento Sustentável · Desenvolvimento Regional · Amazônia

Mineração · Desenvolvimento Regional · Políticas Públicas · Intervenção Estatal · Sustentabilidade · Relações Minerais Globais · Teoria dos Sistemas Sociais

Visão Geral do Projeto

Estratégias de Sustentabilidade foi um programa integrado de pesquisa desenvolvido no NAEA/UFPA para examinar estratégias teóricas e práticas de desenvolvimento sustentável na Amazônia.

O programa foi coordenado por Franz Josef Brüseke e estruturado em quatro subprojetos interconectados, relacionados à teoria da sustentabilidade, extração mineral, energia e perdas materiais na indústria amazônica e condições institucionais do desenvolvimento sustentável.

Minha responsabilidade foi o Subprojeto 2 — Extração Mineral e Desenvolvimento Sustentável.

O subprojeto deu continuidade a uma trajetória mais longa de pesquisa sobre mineração na Amazônia e sucedeu o projeto Mineração — Ouro: a garimpagem e a mineração industrial (1994–1996).

Enquanto a pesquisa anterior comparava mineração artesanal e industrial de ouro, o novo projeto deslocou o foco para uma questão mais ampla:

Como a extração mineral poderia ser conectada ao desenvolvimento regional sustentável e convertida em benefícios duradouros para as populações das regiões produtoras?

O projeto recebeu apoio do CNPq.

Contexto da Pesquisa

O projeto partiu de duas observações desenvolvidas em pesquisas anteriores sobre mineração.

Primeiro, a extração mineral havia se tornado uma das atividades econômicas e transformadoras mais importantes da Amazônia, particularmente no Pará e no Amapá.

Segundo, pesquisas anteriores levantavam dúvidas sobre a capacidade das políticas públicas de transformar a exploração de recursos minerais em benefícios duradouros para as populações regionais.

A pesquisa conectou, portanto, a mineração a um problema mais amplo de desenvolvimento regional:

Como integrar a extração de recursos minerais não renováveis a uma estratégia de desenvolvimento regional sustentável?

Essa questão exigia atenção não apenas aos efeitos econômicos da mineração, mas também a políticas públicas, capacidades institucionais, estruturas regionais, organização global do setor mineral e fundamentos teóricos utilizados para explicar o desenvolvimento baseado em recursos naturais.

Da Mineração de Ouro ao Desenvolvimento Regional Sustentável

Pesquisas anteriores haviam se concentrado principalmente no garimpo de ouro e, posteriormente, na comparação entre mineração artesanal e industrial.

O novo projeto ampliou substancialmente essa perspectiva.

A mineração deixou de ser tratada principalmente a partir da organização da própria extração e passou a ser analisada em suas relações com:

  • estruturas econômicas regionais;
  • políticas estatais;
  • mercados minerais internacionais;
  • grandes corporações mineradoras;
  • condições ambientais;
  • capacidades institucionais;
  • teorias do desenvolvimento sustentável.

O projeto marcou, assim, uma transição importante da pesquisa sobre mineração de ouro como atividade extrativa específica para um programa mais geral sobre extração mineral e desenvolvimento regional.

Objetivos da Pesquisa

O subprojeto combinou objetivos teóricos e orientados às políticas públicas.

Entre seus principais objetivos estavam:

  • formular recomendações para a política mineral no âmbito de uma concepção de desenvolvimento sustentável;
  • analisar os encadeamentos econômicos gerados por projetos minerários na Amazônia;
  • examinar impactos regionais de grandes projetos de mineração;
  • analisar políticas públicas voltadas à mineração nos níveis municipal, estadual e federal;
  • identificar áreas de convergência e conflito entre diferentes intervenções públicas relacionadas ao setor mineral;
  • examinar as possibilidades e limitações da intervenção pública em um setor minerário altamente globalizado;
  • comparar experiências de mineração em grande escala em outros países;
  • avaliar conceitos desenvolvidos para o uso sustentável de recursos naturais não renováveis;
  • testar a utilidade explicativa de conceitos como sinergia, auto-organização e não linearidade;
  • investigar se a extração mineral poderia ser incorporada a uma estratégia mais ampla capaz de gerar benefícios regionais mais duradouros.

Escopo Empírico

O desenho original previa análise comparativa de diversas regiões e grandes projetos minerários na Amazônia.

Entre eles estavam:

  • Carajás — Pará;
  • Mineração Rio do Norte / Oriximiná — Pará;
  • Serra do Navio — Amapá;
  • Projeto Jari — Amapá/Pará;
  • Pitinga — Amazonas;
  • Urucum — Amazonas;
  • Caulim do Rio Capim — Pará.

O objetivo comparativo era examinar como diferentes formas de extração mineral interagiam com economias regionais, instituições públicas, infraestruturas, estruturas sociais e condições ambientais.

Entretanto, o programa empírico de campo não foi executado na extensão originalmente prevista.

Um relatório posterior do CNPq registra que a ausência de financiamento complementar para o trabalho de campo, particularmente oneroso na Amazônia, impediu a realização de parte importante das viagens planejadas.

Essa limitação deslocou o projeto mais fortemente para a reconstrução teórica e o trabalho analítico.

Mineração, Região e Intervenção Externa

Um problema teórico central dizia respeito à relação entre projetos minerários e as regiões nas quais eram implantados.

Interpretações existentes enfatizavam frequentemente as relações entre periferias produtoras de recursos e mercados mundiais.

Abordagens da dependência, modelos de enclave e interpretações associadas posteriormente a Stephen Bunker e Elmar Altvater ofereceram contribuições importantes sobre intercâmbio desigual, transferências materiais e energéticas e efeitos estruturais das economias extrativas.

O projeto identificou, entretanto, uma limitação importante nessas abordagens: elas explicavam melhor as relações entre projetos extrativos e mercados externos do que as estruturas e interações que se desenvolviam entre os projetos minerários e as regiões nas quais operavam.

A pesquisa formulou, assim, um desafio teórico mais amplo:

Como uma região se estrutura e se transforma em resposta a uma intervenção externa, como um grande projeto minerário?

Essa questão tornou-se progressivamente importante em minhas pesquisas posteriores sobre desenvolvimento regional.

Sustentabilidade e Recursos Não Renováveis

O projeto também abordou uma tensão fundamental nos debates sobre desenvolvimento sustentável.

A mineração baseia-se na extração de recursos não renováveis. Isso levantava a questão de se, e sob quais condições, a extração mineral poderia ser compatível com uma concepção de sustentabilidade.

A pesquisa examinou abordagens da economia dos recursos naturais e da economia ecológica, incluindo discussões sobre:

  • recursos exauríveis;
  • capital natural;
  • fluxos de materiais e energia;
  • contabilidade ambiental;
  • critérios de sustentabilidade;
  • justiça e sustentabilidade;
  • relações entre esgotamento mineral e desenvolvimento regional.

O objetivo não era adotar um único modelo de sustentabilidade, mas avaliar a utilidade teórica e prática de diferentes abordagens para compreender a mineração na Amazônia.

Políticas Públicas e Limites da Intervenção Estatal

Um componente importante do projeto dizia respeito ao desenvolvimento histórico da política mineral no Brasil e na Amazônia.

A pesquisa examinou o papel de instituições como DNPM, CPRM e CVRD, programas de desenvolvimento regional e sucessivas estratégias de política mineral.

Uma preocupação central era a discrepância entre as intenções das políticas públicas e suas consequências efetivas.

Isso gerou uma questão importante:

Em que medida consequências não intencionais da intervenção pública resultam de conhecimento insuficiente sobre as condições regionais e em que medida refletem limitações estruturais da capacidade do poder público de produzir os efeitos pretendidos pelas políticas de desenvolvimento regional?

A pesquisa também destacou uma crescente assimetria entre intervenção política territorialmente delimitada e atores econômicos que operavam globalmente.

Isso levantou questões sobre a capacidade das políticas públicas de regular um setor mineral caracterizado por corporações multinacionais, mercados globais e investimentos transnacionais.

Mineração como Atividade Econômica Global

O projeto tratou a mineração como setor altamente globalizado, caracterizado por grandes corporações, investimentos transnacionais e mercados internacionais de commodities.

A pesquisa buscou compreender a lógica interna e o comportamento estratégico de grandes empresas mineradoras atuantes ou interessadas em investir na Amazônia.

Essa perspectiva ampliou a análise para além das políticas minerárias locais e nacionais.

Regiões produtoras de recursos passaram a ser compreendidas cada vez mais como conectadas a decisões, mercados e estratégias organizacionais geradas em outros contextos.

Essa mudança tornou-se posteriormente importante para minhas pesquisas sobre políticas globais de matérias-primas, governança transnacional de recursos e desenvolvimento regional.

Desenvolvimento Teórico: da Sinergética à Teoria dos Sistemas Sociais

Um dos resultados mais importantes do projeto foi de natureza teórica.

O desenho original explorava conceitos derivados da sinergética, auto-organização e termodinâmica não linear como possíveis alternativas às explicações convencionais do desenvolvimento regional e dos impactos da mineração.

O processo de pesquisa revelou, entretanto, limitações importantes na transferência direta desses conceitos para a análise social.

O relatório do CNPq registra que abordagens termodinâmicas e não lineares ofereciam contribuições relevantes, mas tendiam a reduzir a complexidade socioeconômica ao buscar fatores causais relativamente simples.

Isso dificultava a explicação de causalidades não lineares e consequências emergentes do funcionamento da sociedade moderna como um todo complexo.

A busca por um marco teórico capaz de lidar com essa complexidade conduziu progressivamente à teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann.

O relatório propôs confrontar uma teoria universal da sociedade moderna, desenvolvida principalmente a partir de observações da Europa e da América do Norte, com as condições sociais da Amazônia e com questões de desenvolvimento.

Essa transição teórica tornou-se altamente significativa para minhas pesquisas posteriores.

Abordagem de Pesquisa

O projeto combinou:

  • pesquisa teórica e bibliográfica;
  • análise da literatura sobre mineração e desenvolvimento regional;
  • análise de políticas minerais e de desenvolvimento regional;
  • estudo de instituições públicas e arranjos regulatórios;
  • análise comparativa de regiões e projetos minerários;
  • análise de experiências internacionais de mineração;
  • exame de teorias sobre recursos naturais e sustentabilidade;
  • reconstrução teórica de processos de desenvolvimento regional.

O desenho inicial também previa amplo trabalho de campo em diferentes regiões mineradoras amazônicas.

Como o cofinanciamento necessário não foi obtido, esse componente permaneceu substancialmente mais limitado do que previsto.

Minha Função

Fui responsável pelo Subprojeto 2 — Extração Mineral e Desenvolvimento Sustentável dentro do programa integrado Estratégias de Sustentabilidade.

O programa integrado foi coordenado por Franz Josef Brüseke.

Minha responsabilidade concentrou-se no desenvolvimento e execução do componente sobre mineração e desenvolvimento regional.

O subprojeto deu continuidade às pesquisas anteriores sobre mineração artesanal e industrial de ouro, ampliando a análise para desenvolvimento regional, política mineral sustentável, intervenção estatal, relações minerais globais e abordagens teóricas da transformação regional complexa.

Publicações Relacionadas ao Projeto

Riqueza Volátil. A mineração de ouro na Amazônia

Mathis, A., Brito, D., & Brüseke, F. J. (1997). Belém: CEJUP.

O livro também se apoia diretamente nas pesquisas anteriores sobre mineração artesanal e industrial de ouro.

Garimpagem de ouro e valorização da Amazônia

Mathis, A. (1998). “Garimpagem de ouro e valorização da Amazônia: a formação de relações de trabalho sob o quadrângulo mercado internacional, estado nacional, região e natureza.” Papers do NAEA, Paper 101.

O trabalho conectou a mineração de ouro às relações entre mercado mundial, Estado nacional, estruturas regionais e condições materiais.

O fim da supremacia da política

Mathis, A. (1998). “O fim da supremacia da política. Possibilidades e limites da intervenção do Estado na interpretação da teoria dos sistemas.” Papers do NAEA, Paper 102.

O artigo representa uma etapa importante da transição teórica em direção à teoria dos sistemas sociais e à análise dos limites da intervenção política.

Modelos explicativos para analisar a dinâmica social e econômica no sul do Pará

Mathis, A. (1998). Papers do NAEA, Paper 103.

O trabalho examinou diferentes abordagens teóricas para explicar a dinâmica social e econômica no sul do Pará e está diretamente relacionado à reconstrução teórica desenvolvida durante o projeto.

Contribuição para Minha Pesquisa

Este projeto representa uma importante transição em minha trajetória de pesquisa.

Trabalhos anteriores haviam se concentrado principalmente na mineração artesanal e industrial de ouro.

Estratégias de Sustentabilidade — Extração Mineral e Desenvolvimento Sustentável ampliou o problema de pesquisa para as relações entre extração mineral, estruturas regionais, políticas públicas, mercados globais, sustentabilidade e capacidade de intervenção política.

Em retrospecto, três desenvolvimentos foram particularmente importantes.

Mineração e transformação regional. A pesquisa passou a perguntar de forma mais explícita como projetos minerários interagem com estruturas regionais existentes, em vez de tratar a mineração apenas como enclave conectado aos mercados externos.

Limites da intervenção. A discrepância entre intenções políticas e consequências regionais reforçou o interesse pelos limites estruturais da condução política deliberada.

Reconstrução teórica. A busca de alternativas a explicações lineares e reducionistas contribuiu diretamente para o uso crescente da teoria dos sistemas sociais em minhas pesquisas sobre desenvolvimento e transformação regional.

Da Mineração e Sustentabilidade ao Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial

O projeto foi desenvolvido muito antes da formulação de Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial (RWS) e não deve ser interpretado como uma aplicação inicial desse marco teórico.

Sua relação com o programa atual é de genealogia de pesquisa, e não de continuidade teórica.

O projeto já formulava, contudo, um problema que posteriormente se tornaria central em outro vocabulário teórico:

como processos que ultrapassam regiões específicas interagem com estruturas regionais historicamente constituídas e produzem consequências regionalmente diferenciadas.

Também levantou questões relacionadas a:

  • organização global da atividade econômica;
  • limites territoriais da intervenção política;
  • capacidades organizacionais e institucionais;
  • papel do conhecimento e da observação teórica;
  • consequências não lineares e não intencionais;
  • relações entre condições materiais e estruturas sociais.

A posterior aproximação com a teoria dos sistemas sociais forneceu um marco conceitual por meio do qual várias dessas questões puderam ser reformuladas.

Relevância analítica retrospectiva:
Mineração · Transformação Regional · Intervenção Política · Organizações · Relações com o Mercado Mundial · Materialidade · Complexidade · Diferenciação Regional

Pesquisas relacionadas

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