Leibniz Lab Systemic Sustainability — Região Piloto de Belém
Sustentabilidade Sistêmica, Inovação Regional e Transformação dos Sistemas Alimentares na Amazônia Brasileira
2025–2027 · Leibniz Lab Systemic Sustainability · ZMT · UFPA/NAEA · Cooperação Internacional em Pesquisa · Amazônia Brasileira
Sustentabilidade Sistêmica · Biodiversidade · Clima · Agricultura · Sistemas Alimentares · Inovação Regional · Bioeconomia · Conhecimento · Amazônia
Visão Geral do Projeto
A Região Piloto de Belém constitui o componente amazônico brasileiro do Leibniz Lab “Systemic Sustainability” (LL-SYSTAIN), uma iniciativa de pesquisa da Leibniz voltada às interdependências entre perda de biodiversidade, mudanças climáticas, agricultura e sistemas alimentares.
O Leibniz Lab reúne competências de 41 instituições de pesquisa da Leibniz e 11 clusters de pesquisa e trabalha com quatro regiões-piloto internacionais: Berlim/Brandemburgo, na Alemanha; a região do Kilimanjaro, na Tanzânia; a região de Hanói, no Vietnã; e Belém, na Amazônia brasileira.
A região-piloto de Belém se apoia em uma cooperação de pesquisa de longa duração entre o Leibniz Centre for Tropical Marine Research (ZMT) e a Universidade Federal do Pará (UFPA), especialmente o Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), bem como na cooperação com atores sociais da região costeira e do nordeste da Amazônia brasileira.
Minha participação no projeto ocorre no âmbito do ambiente de pesquisa UFPA/NAEA da região-piloto de Belém. A documentação disponível confirma minha participação, mas não estabelece uma função formal específica, como coordenação da região-piloto ou investigador principal. Por essa razão, nenhuma dessas designações é utilizada aqui.
O Desafio da Sustentabilidade Sistêmica
O LL-SYSTAIN parte da premissa de que grandes desafios de sustentabilidade não podem ser adequadamente compreendidos ou enfrentados de forma isolada.
A produção agrícola afeta a biodiversidade e o clima, enquanto a perda de biodiversidade e as mudanças climáticas geram novos riscos para a agricultura e a segurança alimentar. Respostas em uma dessas áreas podem, portanto, produzir consequências nas demais.
O Lab aborda essas interdependências por meio de quatro campos estreitamente conectados:
Biodiversidade · Clima · Agricultura · Alimentação
Em vez de tratar a sustentabilidade como um conjunto de problemas setoriais separados, a pesquisa busca compreender interações, retroalimentações e possíveis conflitos entre esses campos e identificar abordagens capazes de contribuir para processos mais amplos de transformação sistêmica.
Um elemento importante dessa abordagem é a combinação de conhecimento científico e conhecimento provenientes de atores sociais. Demandas e experiências regionais são colocadas em relação com conhecimentos científicos mais amplos e desenvolvimentos globais, enquanto as regiões-piloto oferecem contextos empíricos para identificar e examinar possíveis trajetórias em direção à sustentabilidade sistêmica.
A Amazônia Brasileira como Região-Piloto
A região-piloto brasileira é identificada no projeto mais amplo como Belém / Amazônia Brasileira, enquanto alguns documentos também utilizam a denominação Belém / Bragança.
Na prática, o campo empírico se estende para além da cidade de Belém. A pesquisa e a documentação de casos incluem iniciativas na região metropolitana e nas ilhas de Belém, no nordeste do Pará e em outras regiões produtivas da Amazônia.
Essa perspectiva regional ampliada é importante porque os sistemas alimentares conectam diferentes contextos territoriais: áreas de produção agrícola e extrativista, comunidades, cooperativas, atividades de processamento, mercados, organizações de pesquisa e consumidores urbanos.
A região-piloto oferece, assim, um contexto para examinar como desafios e inovações relacionados à sustentabilidade se conectam através de diferentes organizações, sistemas produtivos, práticas de conhecimento e contextos territoriais.
Inovações Regionais para a Sustentabilidade Sistêmica
Um dos principais eixos da região-piloto de Belém é a identificação e análise de inovações regionais para a sustentabilidade.
A pesquisa adota uma compreensão deliberadamente ampla de inovação. Inovações relevantes não se restringem a novas tecnologias. Elas podem também envolver novas combinações de conhecimento ecológico, práticas produtivas, arranjos organizacionais, fluxos materiais, relações de mercado e formas de cooperação.
Os casos documentados abrangem, portanto, diferentes formas de inovação, entre elas:
- produção e conservação baseadas na biodiversidade;
- sistemas agroflorestais e produção agroecológica;
- organização cooperativa e comunitária;
- relações alternativas entre produtores e consumidores;
- uso circular de resíduos agrícolas e do processamento de alimentos;
- bioeconomia e tecnologias de biomassa;
- conhecimentos locais e tradicionais;
- organizações produtivas e extrativistas lideradas por mulheres.
A diversidade desses casos permite investigar a inovação para sustentabilidade não como uma única trajetória tecnológica, mas como um campo heterogêneo de tentativas de reorganizar relações entre recursos naturais, produção, organizações, conhecimento, mercados e consumo.
Innovation Gallery
A Innovation Gallery constitui um importante componente de pesquisa e transferência de conhecimento da região-piloto de Belém.
Ela identifica e documenta iniciativas do Norte do Brasil relacionadas a diferentes dimensões dos sistemas alimentares sustentáveis e da transformação regional. Os materiais do projeto incluem documentação de casos, visitas de campo, entrevistas e transcrições, literatura e materiais preparados para apresentação digital.
A Gallery permite comparar iniciativas que, de outra forma, tenderiam a ser tratadas em campos de pesquisa separados.
Entre os exemplos encontram-se organizações extrativistas lideradas por mulheres, redes de consumo agroecológico, sistemas agroflorestais, cooperativas e iniciativas tecnológicas voltadas à transformação de resíduos agrícolas em novos produtos.
Mais do que funcionar apenas como uma vitrine de projetos bem-sucedidos, a Gallery oferece uma base empírica para perguntar que tipos de inovação emergem em determinadas configurações regionais, como são organizados, quais formas de conhecimento mobilizam e em que condições podem contribuir para transformações mais amplas orientadas à sustentabilidade.
Biodiversidade, Conhecimento Local e Organizações de Mulheres
Vários casos mostram como a conservação da biodiversidade pode se conectar a meios de vida, conhecimento local e organização coletiva.
Na Ilha do Combu, a pesquisa documenta iniciativas associadas a mulheres extrativistas e ao uso de recursos florestais como a andiroba. Essas práticas conectam atividades produtivas ao conhecimento ecológico local, à organização comunitária e à manutenção de conhecimentos culturais.
A iniciativa Mulheres Amigas das Abelhas constitui outro exemplo. A meliponicultura conecta a conservação de polinizadores nativos à agrofloresta, biodiversidade, geração de renda e participação das mulheres. A iniciativa documentada inclui a expansão das atividades de meliponicultura nas ilhas do Combu e de Cotijuba.
Esses casos tornam visíveis formas de inovação nas quais processos ecológicos e sociais não podem ser facilmente separados.
Agrofloresta e Inovação Cooperativa
A pesquisa também examina organizações produtivas consolidadas capazes de conectar produção regional a mercados mais amplos.
Um caso importante é a CAMTA, em Tomé-Açu. Sua trajetória histórica demonstra uma transição de longo prazo de uma produção agrícola especializada para sistemas agroflorestais diversificados.
O caso combina diversificação ecológica, organização cooperativa, processamento, acumulação de conhecimento e integração a mercados. Ele oferece, portanto, uma oportunidade para examinar como um sistema regional de produção se transforma ao longo do tempo e como estruturas organizacionais podem contribuir para estabilizar e difundir novas práticas produtivas.
Outros casos documentados ampliam essa perspectiva para pequenos produtores agroecológicos, associações e cooperativas no nordeste do Pará.
Formas Alternativas de Organização dos Sistemas Alimentares
A inovação para sustentabilidade também pode ocorrer por meio de mudanças na organização das relações entre produção e consumo.
O Grupo para Consumo Agroecológico (GRUCA) oferece um exemplo de rede alimentar alternativa que conecta consumidores a agricultores familiares, comunidades tradicionais e grupos de mulheres.
Seus princípios organizacionais incluem relações diretas entre produtores e consumidores, transparência, auto-organização e cooperação horizontal. O caso desloca, assim, a atenção da inovação em produtos individuais para a inovação na arquitetura social e organizacional dos sistemas alimentares.
Essa dimensão é particularmente relevante para a sustentabilidade sistêmica, porque mudanças nas práticas produtivas podem ser insuficientes quando comercialização, consumo e relações nas cadeias de valor permanecem inalterados.
Bioeconomia Circular e Fluxos Materiais
Outros casos concentram-se na transformação de resíduos gerados por sistemas produtivos amazônicos.
Projetos associados à Sustenbioenergy investigam o aproveitamento de resíduos de produtos como açaí e tucumã para a produção de bio-óleo, biocombustíveis, biogás, biochar e outras aplicações. A documentação disponível indica processos de desenvolvimento que avançam em direção a protótipos e possibilidades de transferência de tecnologia.
Iniciativas relacionadas examinam o uso de caroços de açaí como biomassa, transformando um importante fluxo residual da economia alimentar regional em um recurso potencial.
Esses casos introduzem uma dimensão de fluxos materiais na pesquisa: a sustentabilidade regional depende não apenas do que é produzido, mas também do destino dos materiais e resíduos gerados pela produção, processamento e consumo.
Abordagem de Pesquisa
A região-piloto de Belém combina pesquisa sobre sustentabilidade sistêmica com identificação regional de casos e documentação empírica.
O processo de pesquisa documentado inclui identificação de casos, visitas de campo, entrevistas, pesquisa documental, documentação de casos e preparação de materiais para apresentação comparativa e digital. O arquivo do projeto contém materiais de campo e transcrições de entrevistas referentes a várias das iniciativas incluídas na Innovation Gallery.
A abordagem comparativa em desenvolvimento permite examinar diferentes tipos de inovação a partir de questões analíticas comuns:
Que problema uma iniciativa procura enfrentar? Como ela é organizada? Quais recursos e formas de conhecimento mobiliza? Como conecta produção, ambiente e mercados? Em que escala territorial opera? O que limita sua expansão ou transferência?
Isso cria uma base para avançar da descrição de iniciativas individuais para uma análise comparativa das condições sob as quais inovações regionais podem contribuir para a sustentabilidade sistêmica.
Minha Pesquisa na Região-Piloto de Belém
Na região-piloto de Belém, minha pesquisa está particularmente relacionada ao desenvolvimento regional, às transformações amazônicas, às organizações, às relações sociedade–natureza e à sustentabilidade.
Isso coloca questões sobre como inovações se conectam a mercados e instituições públicas, como conhecimento científico e local interagem, como organizações estabilizam determinadas práticas e por que inovações aparentemente promissoras podem desenvolver-se de maneiras muito diferentes em diferentes configurações regionais.
A Innovation Gallery é particularmente relevante para essa pesquisa porque permite comparar iniciativas heterogêneas sem pressupor que representem um único modelo de desenvolvimento sustentável.
Questões de Pesquisa Emergentes
A região-piloto de Belém suscita várias questões relevantes para além dos casos individuais.
Como inovações desenvolvidas localmente podem contribuir para transformações que ultrapassem seu lugar imediato de origem?
Quais organizações e redes permitem que inovações sejam estabilizadas, replicadas ou conectadas a mercados e políticas mais amplos?
Como conhecimento científico, conhecimento local e experiência prática interagem na definição do que é considerado uma inovação para sustentabilidade?
Quais condições materiais, organizacionais e institucionais possibilitam ou restringem a transição de iniciativas individuais para trajetórias mais amplas de transformação?
E como intervenções voltadas à biodiversidade, agricultura, clima ou sistemas alimentares produzem consequências nas demais dimensões da sustentabilidade sistêmica?
Essas questões conectam a Innovation Gallery à arquitetura sistêmica mais ampla do LL-SYSTAIN.
Contribuição para Minha Pesquisa Atual
A região-piloto de Belém se articula com várias áreas de minha pesquisa atual sobre desenvolvimento regional, organizações, relações sociedade–natureza e sustentabilidade.
A Innovation Gallery oferece material empírico para pesquisas sobre organizações e inovação regional. Casos relacionados à agrofloresta, ao extrativismo e à bioeconomia circular contribuem para pesquisas sobre relações sociedade–natureza e materialidade. Organizações de produtores e redes alimentares alternativas colocam questões sobre integração a mercados e mediação organizacional. A comparação entre iniciativas heterogêneas oferece material para analisar a diferenciação regional.
O projeto cria, assim, um ambiente empírico de pesquisa no qual questões desenvolvidas em diferentes partes de minha agenda podem ser investigadas conjuntamente.
Relação com Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial
O LL-SYSTAIN não foi concebido como aplicação de Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial (RWS). Os dois marcos de pesquisa devem, portanto, permanecer analiticamente distintos.
A região-piloto de Belém oferece, entretanto, um campo empírico particularmente relevante para minha atual pesquisa teórica.
Preocupações globais relacionadas à biodiversidade, às mudanças climáticas, à agricultura sustentável e à segurança alimentar não produzem consequências regionais de forma uniforme. Elas se conectam a configurações regionais amazônicas por meio de programas de pesquisa, políticas, tecnologias, mercados e iniciativas organizacionais.
A Innovation Gallery torna algumas dessas conexões empiricamente observáveis. Cooperativas, associações, organizações de pesquisa, empresas e iniciativas comunitárias podem conectar práticas localmente enraizadas a conhecimento científico, expectativas ambientais, mercados, tecnologias e instituições públicas.
Do ponto de vista da RWS, a questão relevante não é, portanto, se determinada inovação é intrinsecamente “sustentável”, mas como ela se torna selecionada, organizada, estabilizada e capaz de produzir consequências dentro de uma configuração regional e se conexões estabelecidas em um domínio produzem consequências adicionais em outros.
A região-piloto de Belém oferece, assim, um contexto empírico para examinar como processos heterogêneos da sociedade mundial se conectam seletivamente em configurações regionais amazônicas e como organizações e conhecimento contribuem para essas conexões.
Relevância analítica atual:
Organizações · Conhecimento · Inovação · Materialidade · Relações Sociedade–Natureza · Conexões Seletivas · Diferenciação Regional · Transformação
A relação entre LL-SYSTAIN e RWS deve, portanto, ser entendida como uma interface empírica e analítica, e não como identidade teórica.
Pesquisas relacionadas
Comunidades Extrativistas e Relações Territoriais →
Amazônia como campo de observação →