Práticas Formais e Informais no Uso e Gestão de Recursos Naturais na Amazônia

Cooperação Internacional CAPES–NUFFIC entre Brasil e Países Baixos

2011–2015 · CAPES–NUFFIC · UFPA/NAEA/PPGDSTU · CEDLA · Governança de Recursos Naturais · Amazônia

Instituições Formais e Informais · Acesso a Recursos · Governança · Mineração · Recursos Aquáticos · Responsabilidade Empresarial

Visão Geral do Projeto

Práticas Formais e Informais no Uso e Gestão de Recursos Naturais na Amazônia foi um projeto internacional de pesquisa e cooperação acadêmica entre a Universidade Federal do Pará (UFPA), por meio do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) e do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU), e o Centre for Latin American Research and Documentation (CEDLA), em Amsterdã.

O projeto foi coordenado no Brasil por Armin Mathis (UFPA/NAEA) e nos Países Baixos por Marjo de Theije (CEDLA).

A iniciativa combinou pesquisa comparativa sobre governança de recursos naturais na Amazônia brasileira com formação de pós-graduação, mobilidade de pesquisadores, trabalho de campo conjunto e cooperação acadêmica internacional.

Em vez de tratar a gestão de recursos naturais principalmente como um problema técnico, o projeto investigou como padrões de uso e apropriação resultam da interação entre relações sociais, instituições, características dos recursos, formas de apropriação e interesses econômicos e políticos concorrentes.

Foram examinadas três configurações contrastantes:

  • gestão comunitária de recursos aquáticos renováveis no Baixo Amazonas;
  • mineração de ouro em pequena escala na Província Mineral do Tapajós;
  • responsabilidade empresarial na mineração de bauxita em grande escala no oeste do Pará.

Problema de Pesquisa

Os recursos naturais amazônicos encontram-se inseridos em relações cada vez mais complexas entre populações locais, instituições estatais, empresas, mercados, organizações da sociedade civil e atores transnacionais.

O projeto identificou três grandes processos que moldavam o uso de recursos na região.

Primeiro, o crescimento da demanda internacional por commodities e energia estimulava a expansão de infraestrutura, agricultura em grande escala e indústrias extrativas.

Segundo, populações tradicionais e organizações da sociedade civil desenvolveram estratégias políticas para proteger ou recuperar acesso à terra e aos recursos, incluindo reservas extrativistas, terras indígenas, territórios quilombolas e outros arranjos institucionais.

Terceiro, muitos usuários de recursos operavam por meio de formas menos institucionalizadas de apropriação. Os garimpeiros constituíam um caso particularmente relevante, pois o acesso aos depósitos minerais e ao território frequentemente combinava concessões formais, práticas informais, relações de mercado e arranjos coletivos.

O projeto perguntou, portanto, como diferentes atores estabelecem e mantêm acesso aos recursos naturais, como instituições formais e informais interagem e como esses arranjos afetam resultados sociais e ecológicos.

Desenho Comparativo da Pesquisa

O projeto adotou uma abordagem comparativa destinada a superar dicotomias recorrentes na pesquisa sobre recursos naturais:

  • formal versus informal;
  • recursos renováveis versus não renováveis;
  • apropriação coletiva versus privada;
  • usuários locais versus empresas;
  • produção de pequena versus grande escala;
  • conflito versus cooperação.

Em vez de tratar essas distinções como categorias fixas, a pesquisa examinou como contexto social, características dos recursos naturais, arranjos institucionais e sistemas de apropriação interagem dinamicamente.

Subprojetos Empíricos

Governança de Recursos Aquáticos no Baixo Amazonas

O primeiro subprojeto investigou o uso e a gestão de recursos aquáticos nas áreas de várzea do Baixo Amazonas.

Comunidades de várzea haviam desenvolvido regras locais de pesca e uso de recursos ao longo do tempo, enquanto políticas públicas introduziam formas mais institucionalizadas de participação comunitária e cogestão.

A pesquisa comparou o uso socioeconômico da pesca e de outros recursos aquáticos com os sistemas formais e informais de regras que regulavam esses recursos.

Atenção especial foi dedicada às relações entre comunidades, órgãos governamentais, ONGs e pesquisadores na construção de instituições de cogestão.

Mineração de Ouro em Pequena Escala no Tapajós

O segundo subprojeto examinou conflito e cooperação na extração de ouro na Província Mineral do Tapajós.

A pesquisa abordou conflitos envolvendo populações locais, garimpeiros, autoridades públicas e empresas mineradoras.

Foram examinadas disputas por recursos minerais, conflitos entre mineração e outros usos do território e tensões entre extração mineral e conservação ambiental.

Atenção particular foi dedicada às políticas públicas de regulação da mineração de ouro, aos obstáculos à formalização, ao papel das organizações de garimpeiros e às possibilidades de cooperação entre diferentes atores.

Responsabilidade Empresarial na Mineração de Bauxita

O terceiro subprojeto deslocou a perspectiva analítica da pequena mineração para a mineração empresarial de grande escala.

Tomando como casos empíricos a mina da ALCOA em Juruti e a Mineração Rio do Norte (MRN), em Oriximiná, a pesquisa investigou responsabilidade social empresarial no setor mineral.

O estudo examinou como normas internacionais de responsabilidade empresarial eram traduzidas para contextos jurídicos e institucionais brasileiros, como empresas desenvolviam práticas de monitoramento e prestação de contas e como comunidades, ONGs, governos locais e outros atores percebiam os programas sociais empresariais.

Formalidade, Informalidade e Acesso

Uma preocupação teórica central do projeto foi a relação entre instituições formais e acesso efetivo aos recursos naturais.

A pesquisa dialogou com a literatura sobre recursos de uso comum e direitos de propriedade, especialmente com trabalhos associados a Elinor Ostrom.

Ao mesmo tempo, identificou uma limitação importante: abordagens centradas exclusivamente em direitos de propriedade não explicavam adequadamente como relações de poder e interações entre atores em conflito moldam o acesso efetivo aos recursos.

Por isso, o projeto aproximou a literatura sobre commons das abordagens sobre acesso e poder, particularmente da Theory of Access de Ribot e Peluso.

A pergunta analítica deslocou-se, assim, de quem formalmente possui ou controla um recurso para quem consegue efetivamente obter, manter, negociar ou defender acesso a ele.

Cooperação Acadêmica e Formação

O projeto foi concebido não apenas como programa de pesquisa, mas também como estrutura institucional para fortalecer a cooperação acadêmica de longo prazo entre Brasil e Países Baixos.

O quadro aprovado previa:

  • trabalho de campo conjunto entre pesquisadores brasileiros e neerlandeses;
  • workshops e seminários de pesquisa;
  • disciplinas de pós-graduação e cursos de curta duração;
  • orientação conjunta de pós-graduandos;
  • bolsas de doutorado-sanduíche no CEDLA;
  • mobilidade de pesquisadores entre Belém e Amsterdã;
  • preparação de publicações internacionais com avaliação por pares;
  • exploração de arranjos de cotutela ou dupla titulação.

O registro do projeto na CAPES previa seis bolsas de doutorado-sanduíche e diversas missões de pesquisa ao longo dos quatro anos de cooperação.

Minha Função

Atuei como Coordenador Brasileiro do Projeto, coordenando a participação da UFPA/NAEA na cooperação internacional juntamente com Marjo de Theije no CEDLA.

Além da coordenação geral, participei diretamente da pesquisa sobre mineração de ouro em pequena escala e governança de recursos naturais na Província Mineral do Tapajós, particularmente em questões relacionadas a políticas públicas, formalização, conflitos por recursos minerais e territoriais, organizações de garimpeiros e possibilidades de cooperação entre atores.

Relação com o GOMIAM

A cooperação CAPES–NUFFIC desenvolveu-se em um contexto de relações internacionais de pesquisa já existentes entre membros das equipes brasileira e neerlandesa.

Uma conexão especialmente importante existia com o GOMIAM — Mineração de Ouro na Amazônia, programa comparativo internacional sobre mineração de ouro em pequena escala, conflito e cooperação na Amazônia.

Vários pesquisadores participaram dos dois ambientes de pesquisa, e o subprojeto CAPES–NUFFIC sobre mineração de ouro no Tapajós tratou de questões estreitamente relacionadas a formalização, acesso a recursos, conflito e cooperação.

Os dois projetos permaneceram institucionalmente distintos, mas sua sobreposição temporal e intelectual fortaleceu a pesquisa comparativa e a cooperação entre as equipes brasileira e neerlandesa.

Contribuição para Minha Trajetória de Pesquisa

Em retrospecto, três questões surgidas dessa pesquisa tornaram-se particularmente importantes em meus trabalhos posteriores sobre mineração, políticas públicas, governança de recursos naturais e desenvolvimento regional na Amazônia.

Acesso. Direitos formais não determinam por si só quem se beneficia dos recursos naturais. O acesso efetivo depende também de relações sociais, arranjos institucionais, relações de poder e da capacidade dos atores de negociar e manter acesso aos recursos.

Mediação. A pesquisa aumentou a atenção ao papel de órgãos públicos, empresas, associações, comunidades e ONGs na configuração do acesso, cooperação e conflito em torno dos recursos naturais.

Relações global–regional. O uso de recursos na Amazônia não pode ser compreendido exclusivamente em escala local ou nacional. Mercados de commodities, padrões internacionais, práticas empresariais, normas ambientais e redes transnacionais tornam-se relevantes por meio de configurações regionais específicas.

A trajetória não corresponde a uma sequência linear de projetos sucessivos. Diversas iniciativas se sobrepuseram temporal e intelectualmente.

Em conjunto, entretanto, elas ampliaram progressivamente a perspectiva analítica de práticas específicas de mineração para questões de acesso a recursos, governança, mediação organizacional, responsabilidade e consequências regionais de processos estruturados globalmente.

Do Acesso e da Governança de Recursos ao Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial

O projeto CAPES–NUFFIC não foi concebido no âmbito do posterior marco teórico de Desenvolvimento Regional na Sociedade Mundial (RWS).

Sua relevância para o atual programa é, portanto, retrospectiva.

A pesquisa comparativa produziu, entretanto, observações que posteriormente se tornaram importantes para questões relativas a acesso, organizações e diferenciação regional.

Regras formais não determinavam isoladamente o uso dos recursos. Suas consequências dependiam de relações sociais historicamente constituídas, organizações, características dos recursos e capacidades diferenciadas dos atores para assegurar e manter acesso.

O projeto também mostrou que processos que ultrapassam regiões específicas — incluindo mercados de commodities, regulação ambiental e padrões internacionais de responsabilidade empresarial — adquirem relevância regional por meio de arranjos institucionais e organizacionais específicos no Baixo Amazonas, Tapajós e oeste do Pará.

Na perspectiva de minha pesquisa atual, esses casos fornecem material empírico para examinar como processos heterogêneos da sociedade mundial se conectam seletivamente em configurações regionais e geram possibilidades diferenciadas de acesso, participação e uso de recursos.

Relevância analítica retrospectiva:
Acesso a Recursos · Instituições Formais e Informais · Organizações · Relações de Poder · Padrões Globais · Características dos Recursos · Diferenciação Regional

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